sábado, 20 de setembro de 2014

Crítica do Amer: Irmão do Jorel


Como vocês devem saber, eu amo desenhos animados.

De fato, se tiver de escolher entre fazer uma maratona de uma série animada ou de uma série com atores, o desenho vai vencer todas as vezes.

Exceto... Se a série com atores for Game of Thrones. Mas ela é a exceção que comprova a regra...  E ESSE NEM É MEU PONTO AGORA.

Meu ponto é que podemos ter uma conexão com desenhos animados que dificilmente teríamos com atores. Muitas vezes, a presença de um famoso nos tira da imersão de seu filme, pois a celebridade tem precedente sobre o personagem.

Conan é o Arnold Schwarzenegger cabeludo, Malévola é a Angelina Jolie em um cosplay caríssimo e Sam Witwicky é Shia LaBeouf destruindo qualquer dignidade que os Transformers poderiam ter.

Desenhos animados são amálgamas de idéias e características com as quais podemos nos identificar. Charlie Brown não se tornou popular por causa de um ator mirim, mas porque ele representava conflitos e emoções que muitos enfrentamos na infância.

Podem confiar em mim. Essa foi a base de todo o meu TCC na faculdade. E eu tirei um dez!

Mas embora possamos nos conectar em diversos níveis com Charlie Brown e outros personagens de animações importadas, é mais difícil sentirmos uma ligação com o seu ambiente. Para uma criança brasileira, aquelas escolas com armários nos corredores e bailes de fim de ano que definem relacionamentos, são coisas compreensíveis dentro de um contexto, mas totalmente fora da sua realidade.

E nem vou começar a falar das escolas de Anime. Com todos os seus "sempais" e todas as suas "tsunderes", e os robôs gigantes, as explosões, os macacos espaciais de peruca loira e todas essas coisas comuns para os estudantes nipônicos, mas que não existem por aqui.

Felizmente, temos um Cartoon nacional que trará todas as insanidades e o humor que nos acostumamos a ver em séries internacionais, mas em um cenário 100% tupiniquim, com uma dose bem saudável de vida suburbana brasileira.

Senhores, falemos de Irmão do Jorel.
 
Visto aqui com sua família totalmente normal
e nem um pouco esquizofrênica

A história se passa nos anos 1980. época fabulosa em que o mullet ainda era um corte de cabelo socialmente aceitável, usar camisa verde fosforescente com calças rosa-choque quadriculadas não era um atentado ao bom gosto, e quando bandas como Motley Crue ainda eram consideradas danosas as mentes dos jovens.  Aqui somos apresentados ao irmão do Jorel, que se chama...

... hmmm...

Na verdade, o nome dele não importa. O que importa é que ele é irmão do Jorel, o garoto mais espetabuloso, fantasticante e cósmico que já existiu. Jorel é lindo, perfeito, amado e admirado por todos ao seu redor.

É quase como se ele fosse o Tom Hiddleston dos anos 1980. Se existisse internet na época, milhares de meninas passariam horas escrevendo fanfics sobre como elas se apaixonariam e casariam com Jorel em uma cerimônia que faria inveja a princesa Caroline de Mónaco.

Exatamente como fazem com Tom Hiddleston hoje em dia. Não que eu leia ou escreva esse tipo de fanfic para saber.

...

VOCÊS NÃO PODEM PROVAR NADA!!!

SENHORES, CONTEMPLEM: Este cabelo fenomenal

Pois bem, o caso é que nunca descobrimos o nome do irmão do Jorel, porque ele vive a sombra da celebridade de seu parente popular. De fato, se as pessoas sequer notam sua existência, é por sua associação familiar com o Jorel.

Mas isso não chega a ser um problema, pois o irmão do Jorel tem uma vida própria e se envolve em aventuras pelas quais todos passamos em nossas infâncias, como aquele rito de passagem que é remover as rodinhas da bicicleta.

Claro, estamos falando de uma série do Cartoon Network, e uma coisa simples como essa tem seu nível de insanidade elevado a enésima potência, em um estilo que não deve nada a Hora da Aventura, Apenas um Show ou qualquer um dos medalhões da casa.

Mas esta não é a única qualidade da série. Como eu disse antes, O Irmão do Jorel se passa no Brasil e como tal, nos apresenta uma ambientação com o qual todos podemos nos relacionar. O protagonista não arruma um emprego de verão cortando a grama dos vizinhos, aqui a maior tarefa que o guri consegue é ir até a mercearia pra comprar um refri pra avó. E ele tem de lidar com a tentação de não detonar o troco em fichas de fliperama.

Quem nunca transformou dinheiro da vó em partidas de King of Fighters? Ah sim, bons tempos...

E o irmão do Jorel tem duas avós
Garantia de fichas pra chegar ao menos no time do Geese Howard

E já que mencionei, a série também traz um tipo de unidade familiar que é comum para muitos de nós. O irmão do Jorel vive com seu pai excêntrico, sua mãe só um pouco mais ajuizada que seu pai, com o Jorel (claro), com o Nico, seu outro irmão headbanger (pois todo mundo teve um irmão que idolatrava o Kiss) e suas duas avós, uma rabugenta e a outra adorável.

E foi nesse tipo de ambiente que muitos de nós crescemos. A tradição americana é expulsar os filhos de casa assim que eles vão pra faculdade e rezar para eles nunca mais voltarem. Aqui, pais, filhos e avós dividem o mesmo teto em uma adorável bagunça que torna-se a maior representação de amor e estabilidade que pode existir para muita gente. O criador da série, Juliano Enrico, colocou muito de sua infância na obra, o que lhe confere muita autenticidade como representação da infância e das experiências de uma criança brasileira.

Não bastasse tudo isso, a série traz inúmeras referências a cultura dos anos 1980. Desde as mais óbvias, como os filmes de machões ultra violentos, que eram totalmente inapropriados para crianças mas ao mesmo tempo amados por elas, até coisas mais discretas, como um Aqua Play perdido no cenário. Irmão do Jorel é uma animação perfeita para ser vista repetidas vezes, pois sempre podemos perceber algo novo

Como quando você assistiu Caça Fantasmas pela milionésima nona vez e finalmente reparou no Stay Puft estampado em uma embalagem de marshmallows na cozinha de Dana Barret.

...

COMO ASSIM VOCÊ NUNCA VIU O STAY PUFT NA EMBALAGEM? NÃO TEM VERGONHA NESSA CARA? EU O CONDENO AO INFERNO!!!

Vocês merecem ser castigados por Steve Magal!
POR STEVE MAGAL!!!

Graças a minha profissão e aos meus gostos pessoais, conheci muitas pessoas interessadas em trabalhar com animação.. Gente apaixonada, dedicada, que mesmo em um país que dificilmente dava estrutura para tais artistas, nunca desistiram de seus objetivos

Irmão do Jorel  não é apenas uma série com potencial imenso, mas também uma prova de que o mercado de animação nacional está crescendo a passos largos. E que agora ele pode dar chances a muitos outros sonhadores, que quem sabe, poderão no futuro criar obras tão memor´veis quanto Laboratório de Dexter, As Meninas Super-Poderosas ou outro clássicos contemporâneos.

Para a equipe de produção de Irmão do Jorel e para o Cartoon Network, posso dizer apenas mais uma coisa: BRAVO!

Irmão do Jorel  estreia no dia 22 de setembro, as 20:45.

...

No Cartoon Network, obviamente.


Cheers!!!

Related Posts with Thumbnails